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Escândalos online atacam governos

Pode um simples site, sem publicidade ou apoio público, vazar documentos comprometedores de âmbito internacional, como a ideologia xenófoba de um partido político no Reino Unido, o ataque indiscriminado do Exército americano contra um cinegrafista da Reuters e, agora, documentos que revelam mortes de civis e o jogo duplo do Paquistão na luta contra os talibãs? A resposta é apenas “sim” — desde que existe o Wikileaks.

Criado em dezembro de 2006, o portal conseguiu tornar-se um incômodo alto-falante para governos, autoridades e empresas multinacionais. Agora, volta a ser referencial jornalístico por revelar informações ocultas sobre a guerra contra o Talibã no Afeganistão e no Paquistão.

"Eu adoro esmagar os cretinos", diz criador do site O Wikileaks não tem escritório e seu rosto público é louro, australiano, PhD em Física e carrega seu computador numa mochila enquanto muda de um lugar para outro. Criador do site, o ex-hacker Julian Assange, de 39 anos, não tem endereço fixo: passa da casa de um amigo a outro e, de vez em quando, desaparece por meses. Perfis publicados na imprensa australiana mostram que o espírito nômade vem da infância — teria passado por 36 escolas diferentes.

Assange diz ter milhares de documentos — que podem ser levados à internet num futuro próximo. Segundo ele, há evidências de crimes de guerra nos cerca de 90 mil documentos divulgados na rede. Dizendo-se excitado por cutucar os poderosos, ele defende transparência.

— Esse material joga luz sobre a brutalidade do dia a dia da guerra. Existe um clima para acabar com o conflito. Essa informação não fará isso sozinha, mas vai dividir a política significativamente.

Eu gosto de criar sistemas grandiosos e gosto de ajudar pessoas vulneráveis. E gosto também de esmagar os cretinos. É um trabalho adorável — afirmou, em entrevista à revista alemã “Der Spiegel”.

Com mais de um milhão de documentos acumulados, o Wikileaks funciona como um poço online de vazamentos, um projeto que desde o primeiro dia foi aberto ao público, mas passou despercebido pelos repórteres tradicionais, que serviam como elo de ligação, aplicando seus próprios critérios entre a fonte e os meios de comunicação.

O site, no mesmo modo de participação da Wikipédia, oferece a qualquer usuário a chance de postar, anonimamente, através de uma conexão cifrada, textos, áudios ou vídeos confidenciais, cuja autenticidade o site se encarrega de verificar. A equipe é pequena. Há cinco voluntários em tempo integral e entre 800 e mil colaboradores — entre técnicos de informática, advogados e jornalistas.

Através do Twitter e do Facebook, o Wikileaks passou de site pouco conhecido a um portal de referência mundial. Em 2008, recebeu o prêmio de meio de comunicação do ano pela “Economist”.

Em 2009, o portal e seu fundador venceram o prêmio da Anistia Internacional na categoria de Novas Mídias por relatos sobre matanças no Quênia.

O site também causou polêmica ao colocar à disposição, em novembro de 2009, meio ]milhão de telefonemas, emails e SMS emitidos e recebidos pelo FBI e pela Polícia de Nova York no 11 de setembro. Mas o caso mais significativo foi a difusão de um vídeo no qual um helicóptero Apache americano abate, em 2007, uma dezena de civis em Bagdá. O vídeo correu o mundo e teve mais de quatro milhões de acessos em 72 horas no YouTube. As imagens mostravam entre os mortos o cinegrafista da Reuters Namir Noor e seu motorista Saeed Chmagh. O vídeo foi denunciado por organizações de jornalistas, obrigando o Pentágono a abrir uma nova investigação sobre o ataque.

 


O Globo - Economia - 27/7/2010 - Pag.25
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